Educação Musical Especial

EDUCAÇÃO MUSICAL ESPECIAL

Violeta Hemsy de Gainza em

Estudos de Psicopedagogia Musical

A educação musical constitui uma contribuição significativa e sistemática ao processo integral do desenvolvimento humano. Uma de suas principais tarefas consiste em estudar para chegar a influenciar positivamente a conduta do homem em relação ao som e à música, não apenas ao longo de todo o processo vital, mas também diante da enorme diversidade de circunstâncias humanas.

Tais circunstâncias poderão ser de caráter externo, como o ambiente social ou cultural, ou interno, na medida em que se relacionam com as estruturas psicofísicas do homem. Ambos os fatores se combinarão para produzir diferentes graus ou niveis de equilíbrio individual que se traduzem no que denominamos saúde ou doença.

Um dos aspectos mais importantes e essenciais que deve ser abordado por um plano educativo para a comunidade é a organização daquele setor que se convencionou chamar de educação especial.

A educação especial compete abordar os casos e situações que, por se afastarem da “norma” ou normalidade, comportam problemas especiais que transcendem o âmbito da educação geral.

A influência e o poder que caracterizam a música como coadjuvante do desenvolvimento integral do ser humano aparecerão especialmente destacados no caso dos indivíduos que apresentam deficiências ou problemas físicos, afetivos, mentais ou de integração social. Nesses casos, a dimensao educativa da musica se amplia para dar lugar à função terapêutica.

É de capital importância estabelecer o critério que permita discernir, nas diversas perturbações, os limites — necessariamente flexiveis — da normalidade ou, o que é o mesmo, o limiar da situação patológica, uma vez que disso dependerá a integração de um determinado indivíduo na área da educação geral, ou o seu encaminhamento ao sistema que poderá lhe oferecer uma educação especial ou o tratamento específico para seu problema (escolas especializadas, institutos de reabilitação física ou mental, institutos psiquiátricos, internatos, hospitais e até reformatórios ou isolamentos).

A partir do diagnóstico médico do problema, decidir-se-á o enfoque psicopedagógico mais adequado para complementar as diferentes formas específicas de terapia.

A educação e, portanto, a educação musical, deve ser considerada como uma contribuição sistemática ao processo de desenvolvimento integral (bio-psicossocial) do ser humano.

Trata-se de um processo bidirecional e integrado, que compreende:

— a absorção — e posterior elaboração — de elementos e estruturas naturais e culturais (internalização), bem como

— a expressão e descarga intra e interpessoal (externalização e comunicação).

Visto do ângulo da educação geral, esse processo educacional integrado comporta um sistema em equilíbrio estável. Em compensação, considerando-se a perspectiva

da educação especial (educação diferenciada e terapia), a equação se desequilibraria para compensar a carência ou anomalia que e, de forma temporaria ou permanente, manifestada por um determinado indivíduo ou grupo.

Nos processos musicais com indivíduos carentes ou enfermos, as funções expressivas ou de descarga psicofísica e de comunicação costumam ter primazia, embora isso não signifique, de maneira alguma, dizer que deva suceder sempre assim, já que em certos casos a função corretiva ou terapêutica pode consistir precisamente em enfatizar o processo de “carga” ou absorção musical (em seus aspectos sensoriais, afetivos e/ou cognitivos), com o objetivo de mobilizar, desenvolver e mesmo monopolizar as capacidades receptivas do indivíduo.

É óbvio, finalmente, que todo plano educativo e/ou terapêutico musical a ser desenvolvido com indivíduos ou grupos que apresentem problemas especiais requer a participação de uma equipe interdisciplinar, na qual devem colaborar, lado a lado, educadores, musicoterapeutas, terapeutas ocupacionais, médicos, psicólogos, sociólogos e demais especialistas.

ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO MUSICAL ESPECIAL

1) A educação musical especial compreende, de fato, o ciclo completo da educação permanente.

2) Todo sistema escolar deverá prever e planejar o setor da educação musical especial procurando:

—  a articulação de seus diferentes níveis ou ciclos entre si;

—  a correlação com os ciclos correspondentes da educação geral.

3) Os planos gerais de educação para a comunidade deverao abranger tanto o aspecto recuperador e/ou terapêutico dentro da educação musical especial, como o aspecto profilatico, no caso da educação musical geral.

4) As autoridades educacionais deverão se preocupar em verificar a qualidade e a adequação do enfoque pedagógico-musical em instituições educacionais ou para-educacionais:

—  fornecendo orientação e assessoria pedagógica quando forem requeridas;

— assegurando o nível de preparaçãoo profissional (formação geral, psicopedagógica, musical, artistica, musicoterapêutica etc.) e a atualização do magistério musical que realize tarefas de reeducação, educação diferenciada e musicoterapia;

— organizando o controle periódico da evolucão geral e musical dos alunos com problemas de diferentes tipos;

—  proporcionando locals de trabalho adequados, instrumental e equipamentos de gravação e reproduçãomusical e demais elementos às escolas e institutos especializados em educação diferenciada e musicoterapia;

—  criando centros-modelo ou unidades-piloto de educação musical especial e musicoterapia, destinados a pesquisa da educação e reeducação de indivíduos com diversos tipos de problemas ou deficiências (crianças, jovens, adultos, anciãos).

PROFILAXIA

5) As autoridades escolares deverão elaborar planos gerais racionais e criativos de educação musical que considerem uma ação profilática nos aspectos:

a) físico: assegurando uma quantidade de atividades capazes de promoverem o alívio de tensões devidas a instabilidade emocional, fadiga e, sobretudo, ao estilo de vida agitada que predomina nas grandes cidades;

b) psíquico: promovendo os processos de expressão, comunicação e descarga emocional atraves do estímulo musical e sonoro;

c) mental: proporcionando todo tipo de situação que possa contribuir para estimular e desenvolver o sentido da ordem, da harmonia, a organização, a capacidade de compreensão, etc.

6) Cada organização ou sistema escolar devera contar com ambulatório médico, consultório pslcológico e, dentro do possível, com gabinete de musicoterapia, sendo os alunos atendidos por pessoal competente, para se assegurar o controle periódico de sua saúde fisica e mental—devidamente anotado em fichas de acompanhamento atualizadas — e para se atender às consultas sobre os problemas dos alunos que sejam feitas por pais ou professores.

7) Todo programa ou planejamento geral de educação musical deverá promover, tanto em relação aos alunos como aos docentes:

—  a formação de conjuntos vocais ou instrumentals (coral, orquestra, conjuntos de câmara, dentro do gênero erudito, folclórico ou popular), como veículo essencial de expressão, adaptação, comunicação e socialização;

— a participação em diferentes tipos de situações— espontâneas ou organizadas — que envolvam uma atividade musical, a saber: grupos de audição musical, assistência a concertos, sessões de improvisação vocal e/ou instrumental, grupos dedicados a invenção e construção de instrumentos etc.;

— a formação de grupos de expressão polivalentes, onde as atividades musicais se integrem num contexto artístico e expressivo junto à dança, dramatização, marionetes, teatro de sombras, atividades plásticas, meios mistos etc.

PESQUISA

8) As autoridades educacionals e a comunidade em geral deverao promover e auspiciar, mediante publicações, conferências, seminários, oficinas, cursos permanentes e de atualização, concursos, congressos etc., a difusão e pesquisa dentro das diferentes áreas da educação especial e da musicoterapia.

9) A tendência deverá ser a de chegar a um maior esclarecimento do campo específico e dos objetivos essenciais, bem como das relações e aspectos comuns da:

— educação geral;

— educação especial;

—  terapia e profilaxia

através da música, já que a clareza de critério beneficiará o trabalho nos diferentes campos individuais e permitirá uma maior e mais ampla colaboração e integração dos mesmos.

10) Será necessário estimular o trabalho interdisciplinar e contar com a colaboração de profissionais na área da educação musical diferenciada e da musicoterapia, de maneira que o professor de classe, os professores especiais (educação fisica, educação musical, educação artística), o psicopedagogo, o especialista social, o psicólogo e o médico possam somar seus conhecimentos e esforços em favor da educação e recuperação dos indivíduos deficientes e com problemas.

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