«

»

ago 19

CMIJ na volta da Música às escolas em 2011

700x300professor

Foi sancionada pelo presidente Lula, no dia 18 de agosto de 2008 a Lei nº 11.769, publicada no Diário Oficial da União no dia 19, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. A lei faz da Música uma matéria obrigatória do currículo do ensino fundamental e médio, e dá prazo de 3 anos para as escolas implementarem seu funcionamento.

O problema agora é a afinação entre alunos, professores, músicos, instrumentos e equipamentos. Houve uma nota errada, digo, veto, no projeto original: os professores deveriam ter formação em Música. Dados do Censo da Educação Superior, de 2006, dizem que o Brasil tem 42 cursos de licenciatura em música, que oferecem 1.641 vagas. Em 2006, 327 alunos formaram-se em música no Brasil.

Mas estes dados são incertos. Segundo Sérgio Luiz Ferreira de Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Educação Musical – ABEM (cuidado, qualquer semelhança com outra ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla – é mera coincidência), existem aproximadamente 50 cursos de graduação, sendo dois deles cursos de ensino à distância: um da UnB e outro da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS).

A nota errada soa no parágrafo único do artigo 62: “O ensino da música será ministrado por professores com formação específica na área.” A justificativa: “é necessário que se tenha muita clareza sobre o que significa formação específica na área.” A maioria dos cursos superiores formam apenas instrumentistas, compositores e regentes.

A UNICAMP foi pioneira criando a modalidade de formação em Música Popular, que direciona profissionais para funções de mercado, como produção musical e computer music, com aulas de violão, guitarra, baixo, piano, saxofone e voz. De que adianta formar 30 maestros por ano, se o país não tem sequer uma dúzia de orquestras que afinam?

Quem vai reger uma classe de Música sem formação? O maestro Jamil Maluf, do Teatro Municipal de São Paulo, dá o seu tom: “Não existe material disponível para o professor e isso precisará ser criado, porque sem formação e sem material didático não há possibilidade de dar certo.” Quando a Educação Artística se tornou obrigatória a tonalidade era a mesma.

Os alunos, diante de professores despreparados, ficavam, segundo o maestro, “recortando coelhinho de papel pra fazer enfeite de Páscoa. Sou totalmente favorável ao ensino de música, sempre achei uma pena ele ter saído das escolas. Mas é uma coisa que precisa ser muito bem pensada para que funcione”, disse Jamil, premeditando o breque da lei.

A música até então era optativa, a cargo do planejamento pedagógico das secretarias estaduais e municipais de educação. No ensino das artes, a escola poderia oferecer artes visuais, música, teatro e dança. Com a alteração da LDB, a música passa a ser o único conteúdo obrigatório, mas não exclusivo. Há liberdade para tratar as outras artes irmãs irmamente.

As escolas têm até 2011 para entrarem no ritmo da lei, e uma nova política definirá em quais séries da educação básica a música será incluída e com que carga horária. Helena de Freitas, coordenadora-geral de Programas de Apoio à Formação e Capacitação Docente de Educação Básica no Ministério da Educação explica:

“A lei não torna obrigatório o ensino em todos os anos, e é isso que será articulado com os sistemas de ensino estaduais e municipais. O objetivo não é formar músicos, mas oferecer uma formação integral para as crianças e a juventude. O ideal é articular a música com as outras dimensões da formação artística e estética”.

Um dos méritos da obrigatoriedade do ensino musical é, no mínimo, formar melhores ouvintes. A proliferação de músicas e músicos despejando suas catarses e sublimações em nossos ouvidos, que funcionam como pinicos, pode ser contida por uma audiência mais bem formada e informada, que saiba diferenciar uma bunda de uma banda, pelo menos.

O MEC já vai avisando que não se trata de ensinar a molecada a cantar hino, ter noções básicas de música, e a velha brincadeira de diferenciar os timbres dos intrumentos de orquestra. Deve ser dado espaço para o aprendizado dos vários ritmos, danças e sons de instrumentos regionais e folclóricos tupiniquins.

A história do ensino musical no Brasil começou com Villa-Lobos. Em 1927, depois de 3 anos na França, ele voltou ao país e apresentou, em São Paulo, um plano de educação musical. Villa-Lobos já sabia que sem instrumentos o jeito era cantar. Em 1931, organizou um grande coral chamado Exortação Cívica, com 12 mil vozes. Um excesso de notas apenas suplantado por solos de guitarristas de rock.

O maestro chegou à direção da Superintendência de Educação Musical e Artística, e a maioria de suas composições desta época se voltava para a educação musical. Em 1932, o presidente Getúlio Vargas tornou obrigatório o ensino de canto nas escolas e criou o curso de pedagogia de música e canto. Comenta-se que possa ter se suicidado depois de ouvir os cantores e cantoras que essa lei pariu.

Desde então, além de tirar a Música do ritmo das salas de aula, pouco se fez para melhorar a idéia de Villa-Lobos. Em 1960, um projeto de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro para a Universidade de Brasília buscava dar espaço para a improvisação. O mote do projeto era “preservar a inocência criativa das crianças”, inversamente proporcional às qualidades didático-musicais de Xuxa, Angélica e outras louras paraquedistas na área.

Alguns anos mais tarde, eminentes especialistas e músicos, dentre eles o compositor e engenheiro acústico Conrado Silva ensaiaram um outro projeto, criando o curso Colegial Técnico de Música. A idéia jaz até hoje em algum arquivo morto do extinto DENP – Departamento de Estudos e Normas Pedagógicas – da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, túmulo do samba e outros estilos mais.

Um lobby de conservatórios decadentes, escolas de música precárias e professores particulares impediu a implantação do Técnico de Música, que já previa a formação de professores que, paulatinamente, iriam suprir a carência de professores com uma formação média, para atender o ensino primário, secundário, sucessivamente.

Existem até conservatórios que chamam de curso técnico de música um curso genérico, como o do Conservatório Souza Lima, que não se intimida em anunciar que foi inspirado no Berklee College of Music de Boston. Concluído o curso, a única “vantagem” que o aluno leva, além do conhecimento adquirido, é não precisar de prestar exame para obter a desafinada carteirinha da OMB.

Fica então soando no ar o maior desafio da Lei nº 11.769: Como equipar as escolas com instrumentos, equipamentos e professores em 3 anos?

5 comments

  1. Jane Lino Barbosa de Sousa

    Parabéns!
    Realmente gostaria de saber como eles vão se virar para inserir a disciplina de música no ensino básico?
    Em meu município temos um grande problema com os professores que lecionam artes nas escolas, pois os mesmos não possuem conhecimento necessário para exercer tal função, e acabam improvisanda as aulas. Creio que o mesmo ocorrerar com o ensino de música devido a falta de profissionais.(espero estar enganada!)
    Mas que a música venha para trabalhar a percepção estética, a sensibilidade, despertar nessa molecada o prazer pela arte musical, e que os alunos possam no ambiente escolar produzir, refletir e apreciar a música.

    1. admin

      Pois é Jane, está marcado para começar em 2011, e muitos serão os problemas, mas o ensino de música é o único “antídoto” para o baixo nível musical que faz de nossos ouvidos verdadeiros “pinicos”…

  2. rivaldo isidoro

    bom!
    Gostaria de saber se quem ja essina na rede estadual e municipal vai continuar encinando na escola?
    Pois ja tenho um grande curiculo em umas escolas do meu municipio e esto estudando em Jõo Pessoa e no Sentro de Criatividade do Recife.
    Um grande abraço a todos.

  3. eliseu antunes

    sou professor de musica não tenho ensino superior na área, tenho certificado de escola de musica , toco varios instrumentos, de sopro, violão, baixo será que tenho chance de ser um desses professores?

  4. RAQUEL SILVA

    gostaria de saber se os professores de musica que irão lecionar nas escolas tem que ter nivel superior em musica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>